segunda-feira, 26 de abril de 2010

A antipartícula diante de antigos ensinamentos


Desde todo o sempre a criatura humana foi chamada à atenção para a realidade invisível de outras dimensões. E, como os antigos já sabiam desta verdade, não tardaram em complementá-la com o legado do espírito, a essência individual.
Krishna, a esse respeito, é objetivo em sua explicação à Arjuna – “perecíveis são os corpos, esses templos do espírito; quem pensa é a alma, o Eu; atua a matéria em virtude do seu poder interno, construindo formas mutáveis; o espírito que nela habita e a fecunda faz com que ela experimente prazer e sofrimento”.
Lao-Tsé, por sua vez, no seu poema vinte e cinco, diz – “nas profundezas do Insondável, jaz o Ser”. Podendo-se interpreta-lo, não somente como o Universo e Deus, mas também como o corpo e o espírito.
Buda, a seu turno, despedindo-se dos seus discípulos, obtemperou – “a morte é apenas o desaparecimento do corpo físico; este corpo nasce de pais e se mantém com alimentos; por isso, a doença e a morte lhe são inevitáveis; Buda não é um corpo físico; o corpo físico perece; aquele que apenas vê o meu corpo não me vê realmente”. Ou, ainda, em outra ocasião, enunciou - “tudo é mutável, tudo aparece e desaparece; só poderá haver a bem-aventurada paz quando se puder escapar da agonia da vida e da morte”.
Sócrates e Platão, aos seus tempos, defenderam que a alma era imortal, porque “cada corpo movido de fora é inanimado. O corpo movido de dentro, contudo, é animado, pois que o movimento é da natureza da alma. E o que a si próprio se move é imortal”. Identificavam Deus como sendo o movimento primordial do universo, e o espírito pequena parcela de movimento que veio do Gerador de tudo. Desse modo, segundo eles, o verdadeiro filósofo não devia temer a morte.
O Mestre Jesus, por sua vez, dissera “não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma”. Ou, ainda, conversando com Nicodemos, obtemperara – “o que nasce da carne é carne, mas o que nasceu do espírito é espírito”.
Um dos mais notáveis discípulos do Cristo, Paulo de Tarso, igualmente, ensinara - “se há corpo material, há também o corpo espiritual; pois nem todos os corpos são da mesma natureza. Importa que esse corpo corruptível revista a incorruptibilidade, e que esse corpo mortal revista a imortalidade”.
O Espiritismo, a seu turno, explica que “os seres materiais constituem o mundo visível ou corpóreo, e os seres imateriais, o mundo invisível ou espírita, isto é, dos Espíritos”; e que “os Espíritos revestem temporariamente um invólucro material perecível, cuja destruição pela morte lhes restitui a liberdade”. Kardec elucida, ainda, - “a morte é a destruição do envoltório corporal; a alma abandona esse envoltório como troca a roupa usada, ou como a borboleta deixa sua crisálida; mas conserva o seu corpo fluídico ou perispírito”. Deixando claro, outrossim, que “a alma é assim um ser simples; o Espírito um ser duplo e o homem um ser triplo. Seria mais exato reservar a palavra alma para designar o princípio inteligente, e o termo Espírito para o ser semimaterial formado desse princípio e do corpo fluídico; mas, como não se pode conceber o princípio inteligente isolado da matéria, nem o perispírito sem ser animado pelo princípio inteligente, as palavras alma e Espírito são, no uso, indiferentemente empregadas uma pela outra; é a figura que consiste em tomar a parte pelo todo, do mesmo modo por que se diz que uma cidade é povoada de tantas almas, uma vila composta de tantas famílias; filosoficamente, porém, é essencial fazer-se a diferença”.
Pode ser, porém, que tu te estejas perguntando – “tudo bem, filosoficamente, o que nos indagamos até aqui é uma conseqüência natural da existência de uma outra dimensão; mas será que existe algum dado cientifico que possa sustentar estes ensinos?” -.
A resposta, no entanto, será um objetivo sim.
Em 1927, o famoso físico alemão Werner Karl Heisenberg formulou um interessante princípio, ao qual ficou conhecido como o Princípio da Incerteza. Este postula que não se pode determinar com exatidão a posição e a velocidade de um objeto com precisão infinita ao mesmo tempo: ou se saberá mais de um, ou mais de outro.
Tal teoria, a primeira vista, pode ser considerada muito simples. Contudo, é extremante revolucionário se for aplicado a outras situações, e mesmo nesta original. Dentre as inúmeras contribuições, ela foi a base para se instituir o Paradigma Quântico. Este diz ser impossível predizer um único resultado definido para uma observação, pelo contrário, a ciência pode predizer vários desfechos possíveis diferentes, informando-nos qual a probabilidade de cada um deles ocorrer.
O norte-americano Richard Feynman, por sua vez, aplicando este princípio ao elétron descobriu que, mesmo num espaço vazio, pares de partícula/antipartícula virtuais existem. Esta conclusão ficaria conhecida como sendo o Diagrama partícula/antipartícula virtual de Feynman. Com isso, atualmente, sabe-se que toda matéria possui uma antimatéria virtual portadora também de energia, desde os seus níveis mais microscópicos até os seus estágios mais macros. A questão é que esta última não pode ser detectada pelas máquinas atuais. Entretanto, seus efeitos direitos podem ser medidos. Assim, utilizando-se de sua mais alta capacidade de elucubração, os cientistas conseguiram deduzir a existência dela, pelos efeitos, sem precisarem vê-la.
Ora, esta antimatéria, ou antipartícula, não poderia ser também o corpo espiritual, ou o perispírito proposto pela Doutrina Espírita? Na sombra destas descobertas quânticas, não encontramos o lugar comum dos ensinos antigos acerca da essencial espiritual invisível do ser?
De nossa parte, esposamos a mesma opinião do psiquiatra Jorge Andréa, quando este fala sobre “a existência desses dois campos em convívio e equilibrando-se mutuamente”, complementando que, “na posição humana”, “o nosso arcabouço físico seria constituído às expensas de átomos com suas partículas e os campos perispirituais (zona de transição entre o espírito e matéria) participariam de uma estruturação de antipartículas do campo de antimatéria”. E, tendo em vista que a alma está intimamente ligada ao perispírito, formando o complexo conhecido como espírito, esta antimatéria formando esta estrutura sutil, igualmente, convergiria para a aceitação deste ser fundamental e real.


Bibliografia
1. Krishna. Bhagavad Gita. Tradução de Huberto Rohden. 1.ed. São Paulo: Editora Martin Claret, 2005, p.22-23, cap.2, v.18 e 19; cap.13, v.21.
2. Lao-Tsé. Tao Te Ching – o livro que revela Deus. Tradução Huberto Rohden. 1.ed. São Paulo : Editora Martin Claret, 2005, p. 75, poema 25.
3. Gautama, Siddharta. A Doutrina de Buda. Tradução de Jorge Anzai. São Paulo: Editora Martin Claret, 2005, parte 1, capt. 1, parte II, ponto 5, p. 23; e parte 3, capt.II, parte IV, ponto 7, p. 126.
4. Platão. Fedro. Tradução : Alex Marins. São Paulo : Editora Martin Claret, 2002, p.81-82.
5. Platão. Fedon – diálogo sobre a alma e morte de Sócrates. Tradução de Miguel Ruas. São Paulo : Editora Martin Claret, 2004, p.22-23.
6. São Matheus 10:28.
7. São João 3: 6.
8. 1ª epístola Paulo aos Coríntios, 15:44 e 53.
9. Kardec, Allan. O livro dos Espíritos. 76.ed. Rio de Janeiro : FEB, introdução, ponto V, p.29.
10. Kardec, Allan. Resumo da lei e dos fenômenos espíritas. 28.ed. Araras : Instituto de difusão espírita, 1993, capítulo I, ponto 5, p-209.
11. Kardec, Allan. O quê é o Espiritismo. 52.ed. Rio de Janeiro : FEB, capt.2, ponto 14, p.155.
12. Hawking, Stephen; Mlodinow, Leonard. Uma nova história do tempo. 1.ed. 1.reimpressão. Rio de Janeiro : Ediouro, 2005, p.97,126,127.
13. Andréa, Jorge. Enfoques científicos na Doutrina Espírita. 2.ed. Rio de Janeiro : Sociedade Lorenz, 1991, p.183.



Leonardo Machado

(artigo originalmente publicado na Revista Internacional de Espiritismo)