Foram tomadas todas as condutas diagnósticas e terapêuticas adequadas ao caso e, depois disto, o futuro esculápio, procurando entender melhor o enquadramento familiar, indagou à jovem moça - há quanto tempo tua mãe tem esta doença?. Fez-se um silêncio breve, e, parecendo ter passado por uma retrospectiva de vida, a menina respondeu – faz tanto tempo que eu nem me lembro, “desde que eu me entendo por gente ela é assim”. Não houve, contudo, tempo para ela terminar a frase. Automaticamente, as lágrimas rolaram em seu rosto de modo convulsivo. Um silêncio dominou o ambiente e, até mesmo a paciente, diminuindo o estado de agitação em que se encontrava, deixou-se emocionar...
A fala de Jesus, indicando que o maior dos mandamentos seria o de amar ao próximo como a si mesmo, bem como a Deus acima de tudo, é de uma veracidade singular. Para se amar o Criador, que é ainda um grande desconhecido, é necessário amar a sua criação, sobretudo a mais encantadora, que é o ser humano, o próximo, portanto. Entretanto, para se amar o outro, imprescindível é se amar.
Sem o autoamor, não se dispõe de matéria-prima para amar o semelhante, muito menos o desigual. Somente se consegue doar abundantemente aquilo que se possui em abundância. É por isto que pessoas muito rigidez consigo tendem a ser inflexíveis nas relações diárias; aqueles que não conseguem se perdoar de modo algum passam a ser rancorosos em demasia com os outros; e muitos que se culpam e se torturam mentalmente, muitas vezes, são implacáveis com o próximo.
Nesta perspectiva, observa-se que, até mesmo o amor de mãe, considerado quase sempre como o que há de mais divino, não consegue ser adequadamente demonstrado em situações de intensa dor, insatisfação e vazio pessoais. Em reiteradas ocasiões, assim, os filhos são convidados pela vida, desde tenra idade, a inverterem os papéis e, ao invés de receberem mimos, passarem a ser cuidadores dos pais.
Em tais circunstâncias, pode-se optar pelas vitimização, revolta ou mágoa; ou, então, tentar se preencher de um saudável autoamor, espalhando luzes pela existência. Certamente, esta segunda via é mais difícil porque faz um convite à transcendência, ou seja, ao indivíduo ir além do que se acha capaz; no entanto, seguramente, é o que conduz à paz e à saúde duradouras. Para tanto, não há uma receita única infalível; antes, cada um deve encontrar seu próprio caminho, agregando ajudas nos saudáveis ramos da sabedoria humana.
Leonardo Machado
(artigo publicado no Jornal do Comércio)